Fantasia, televisão e anti-heróis: Entrevista a Filipe Faria

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O autor de Crónicas de Allaryia, Filipe Faria, aceitou o convite do Bookaholic Kingdom e veio falar-nos de fantasia, heróis e deixar umas dicas para os futuros escritores. Desde já agradecemos a Filipe Faria pela disponibilidade e amabilidade!

A (alta) fantasia tem sido um dos patinhos feios da literatura. Parece, contudo, estar ultimamente em voga com A Guerra dos Tronos. Considera que a televisão tem impacto na literatura? 
No projecto em questão que adapta, a televisão tem sem dúvida impacto. Na literatura, de um modo geral, nem por isso. A televisão e o cinema, enquanto formas de entretenimento passivo de mais fácil acesso e maior projecção, acabam por servir como escaparate para as obras que inspiram as adaptações. E, sinceramente - com todo o mérito e qualidades que não deixo de lhe reconhecer - não considero que A Guerra dos Tronos tenha feito muito pela fantasia, alta ou não (ver abaixo).

Gostaria de ver as Crónicas de Allaryia adaptadas ao pequeno ecrã? Ou, como autor, teme a desconstrução de um mundo idealizado na sua cabeça?
Certamente que gostaria. Nesse aspecto, a minha postura é a mesma de Alan Moore: o que eu escrevi está escrito, e nada pode mudar isso. Além de que acho aliciante a ideia de ter leitores que possam ser snobs com quem apenas viu a série e dizer "pfff, já gostava disso antes de ser popular" ou "os livros são melhores".

Muitos consideram a fantasia como um género escapista, está de acordo com esta afirmação?
Não necessariamente "escapista", devido às infelizes conotações do termo. Faço minhas as palavras de Tolkien: Porque haveria um homem de ser gozado se, estando ele na prisão, tenta escapar e voltar para casa? Ou, sendo incapaz de o fazer, pensa e fala acerca de outros assuntos que não carcereiros e as paredes da prisão? O mundo exterior não se tornou menos real, só porque o prisioneiro não consegue vê-lo. Ao usarem "escapar" neste contexto, os críticos escolheram a palavra errada; mais, confundem, nem sempre em erro sincero, a Salvação do Prisioneiro com a Fuga do Desertor.

Que desafios encontrou ao escrever Dragomante, para além de ser já um mundo concebido?
Era um mundo já concebido, sim, e tinha de me ater ao que já estava desenhado (com a liberdade de dar uns retoques em certos painéis e acrescentar três ou quatro páginas). E havia sempre aquele acompanhante receio de estar a tratar de um filho adoptado, em vez de um filho meu, por assim dizer. Mas acabou tudo por correr pelo melhor e eu perfilhei-o no fim.

Aquando a criação de um mundo, a que dá maior importância como escritor: personagens ou cenário?
Personagens são sempre o mais importante. Personagens interessantes dão interesse mesmo a um mundo derivativo, até porque, mesmo na fantasia, o leitor procurará sempre algo que o ancore ao que sabe (ou pensa saber) da natureza humana. Já o mais fascinante e original dos mundos não terá qualquer piada, se as personagens que nele vivem forem insípidas, banais ou pouco convincentes.

A jornada do herói e a dicotomia Bem vs. Mal são um marco da fantasia. Contudo, cada vez mais obras tendem a apresentar uma maior quantidade de anti-heróis. Considera que esta tendência humaniza os heróis ou se apresenta como um novo desafio para a dicotomia bem vs. mal?
Isso diz muito do mundo cínico em que actualmente vivemos, e de como o relativismo moral se instalou. Sinceramente, incomoda-me tanto um mundo a preto e branco com personagens em roupas de cores contrastantes que praticamente ostentam etiquetas ao alto, como um mundo em que "complexidade" se confunde com "psicose/neurose" e todos os heróis morrem porque não são suficientemente astutos para serem traiçoeiros e rapaces. É apenas outra forma de maniqueísmo e, sinceramente, acho que faz pior à alma e à consciência colectiva.

Para se ser um bom escritor tem de se ser um bom leitor, quais são as suas obras de referência neste momento?
Pondo de parte a velha piada de "as minhas", e ressalvando que aquela coisa sobre senhores e anéis se mantém e sempre se manterá como a incontornável referência, a série de maior fôlego que mais recentemente me impressionou foi The Arts of Light and Dark, de Vox Day. Recomendo vivamente.

Que conselho deixaria aos leitores do blog que aspiram a um dia se tornarem autores de fantasia?
Façam a seguinte pergunta a vocês mesmos, e sejam absolutamente sinceros: querem escrever porque gostam de escrever, ou só porque vos agrada a ideia terem um livro escrito? Se for a segunda, mais vale desligarem já o computador ou baixarem a caneta, porque as vossas ideias nunca irão a lado nenhum. Se for a primeira, força nisso e a melhor das sortes, porque a escrita deve ser um fim em si mesma. O que vier por acréscimo é um (sem dúvida muito agradável e importante) bónus.

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